segunda-feira, 16 de abril de 2012

Espiritualidade Litúrgica


Oração da Equipe de Liturgia

Divino Espírito Santo, iluminai as nossas mentes, transformai os nossos corações! Que este estudo nos ajude a mergulhar no mistério da fé e da vida celebrada em comunidade. Dai-nos força e coragem, sabedoria e criatividade. Queremos organizar uma Pastoral Litúrgica dinâmica, a fim de que todo o vosso povo participe da liturgia de maneira mais plena, ativa e consciente.
Amém

segunda-feira, 5 de março de 2012

Formação Litúrgica


TRÍDUO PASCAL- Espiritualidade e Preparação Orante

O tríduo pascal é o período de três dias durante o qual os cristãos celebram o centro de sua fé, a paixão, morte e a ressurreição de Jesus Cristo: o SEU mistério pascal! Esse termo vem do latim (tres “três” e dies “dia”).
O tríduo pascal começa na quinta-feira santa e termina no dia da Páscoa, depois das vésperas. Esses três dias constituem o centro de gravidade de todo o ano litúrgico. Sucessivamente, os cristãos comemoram a última ceia de Cristo com os seus discípulos, a prisão, crucificação e seu sepultamento e depois a sua ressurreição dentre os mortos.
Esses três dias formam um conjunto fortemente simbólico: recordam aqueles acontecimentos evocados no Evangelho de João. Jesus, tendo expulsado os vendilhões do Templo é interpelado pelos judeus para que manifeste a autoridade em nome de quem realizou esse gesto em Jerusalém, ao que lhes responde: “Destruí esse santuário e em três dias eu o reconstruirei”. Prefigurando a sua ressurreição, o evangelista interpreta: “Ele falava do santuário de seu corpo” (Jo 2, 18-21).
São três aspectos de uma única páscoa: Páscoa da ceia (5ª feira); Páscoa da Cruz (6ª feira); Páscoa da Ressurreição (Vigília Pascal).

Por que esses três dias?

A Igreja celebra num único e mesmo movimento a paixão, morte e ressurreição de Cristo. Ela manifesta assim a relação essencial entre a maneira de Jesus viver e morrer, “dando a sua vida por seus amigos” (Jo 15, 12), e sua ressurreição dentre os mortos. Isso manifesta que a existência de Jesus, tal como foi vivida até a cruz, é acolhida e salva por Deus.

O que é celebrado na Quinta-feira Santa?

Na noite da quinta-feira antes da Páscoa, nós celebramos a Ceia, a última refeição de Jesus com os seus discípulos, na qual lhes anuncia que vai entregar a sua vida livremente e por amor. Essa entrega é significada de maneira diferente pelos quatro Evangelhos. Marcos, Mateus e Lucas mostram Jesus partilhando com os Doze pão e vinho, que representam o seu corpo e o seu sangue.
No Evangelho de João, esta cena está ausente, e a entregue de Jesus é traduzida pelo gesto do lava-pés. Jesus assume assim a situação de servo e deixa aos seus discípulos este testamento: “Pois é um exemplo que eu vos dei: o que fiz por vós, fazei-o vós também” (Jo 13, 15).
Fiel à memória de Cristo, a Igreja procede, na noite da Quinta-feira santa, ao rito do lava-pés e celebra solenemente a Eucaristia. No fim da missa, os fieis prosseguem a sua oração acompanhando Jesus na noite de sua prisão no Jardim das Oliveiras. ‘Não podeis vigiar uma hora comigo?’ pergunta Jesus no Getsêmani. É o contrário de tudo o que o homem religioso espera de Deus.

A Sexta-feira Santa é um dia de morte?

Não apenas isso, porque nesse dia os cristãos celebram o amor extremo de Deus. Eles celebram a “kénose” de Deus, sua humilhação que vai até a cruz para reunir os homens. Nesse gesto radical de humildade, que inverte a visão pagã de um Deus dominador, os cristãos recebem a revelação de um Deus que é amor.
Durante este dia, os cristãos acompanham Jesus em sua Paixão, relendo comunitariamente o relato de sua prisão e morte. Ao longo do ofício, a liturgia prevê um gesto de adoração da cruz:símbolo fiel de salvação e da vitória sobre o pecado. Desde o fim da Idade Média, a prática da via-sacra se difundiu largamente. Isso acontece depois do meio-dia da sexta-feira e consiste numa peregrinação em catorze (ou quinze) estações.

O Sábado Santo é um dia “vazio”?

O Sábado Santo é o único dia do ano litúrgico em que não se realiza nenhum ofício coletivo, exceto a liturgia das horas, ou Ofício Divino das Comunidades. Nenhum sacramento é celebrado. É um dia de silêncio e de recolhimento, um dia de espera.
A Tradição o associa “à descida aos infernos”, particularmente presente na espiritualidade bizantina: o Cristo reúne os mortos que permaneceram longe de Deus, a começar por Adão e Eva, para associá-los à libertação iminente de sua ressurreição. O Sábado santo é também consagrado aos preparativos da Festa da Páscoa nas famílias e comunidades cristãs.

O que é celebrado na vigília pascal?

Na Páscoa – celebrada tanto na liturgia noturna do Sábado santo como no domingo da Páscoa –, a Igreja celebra a ressurreição de Jesus, sua “passagem” da morte à vida. Segundo a fé cristã, Deus não deixou seu Filho crucificado na cruz. “Deus o ressuscitou”, “Deus o glorificou”, “Deus o restabeleceu” da morte – estas são as palavras em grego utilizadas pelo Novo Testamento – quem deu a sua vida por amor ao seu Pai e aos homens.
Para os cristãos, essa vitória sobre a morte concerne toda a humanidade. “Pois sabemos: aquele que ressuscitou o Senhor Jesus, também nos ressuscitará com Jesus”, escreve Paulo aos Coríntios (2Cor 4, 14). Este anúncio de uma vida em abundância, mais forte que a morte, é a salvação, a “boa nova” festejada na Páscoa.
Orientações Litúrgicas para uma preparação Orante:
As orientações litúrgicas apontam todas para uma estreita relação entre a celebração da Missa da Ceia do Senhor e a Celebração da Paixão: "O Sacrário deve estar completamente vazio ao começar a celebração. Deverão ser consagrado nesta Missa as hóstias necessárias para a comunhão dos fiéis, e para que o clero e o povo possam comungar no dia seguinte... Para a reserva do Santíssimo... recomenda-se que não se perca de vista a sobriedade e austeridade que correspondem à Liturgia destes dias, evitando ou corrigindo qualquer forma de abuso... Com efeito a capela da reposição é preparada não para representar a "sepultura do Senhor", mas para guardar o pão eucarístico para a comunhão que será distribuída na Sexta-Feira na Paixão do Senhor".
A Missa da Ceia do Senhor nem tem bênção, nem despedida. E a Celebração da Paixão, não tem canto de entrada, nem saudação do Presidente. Os ritos iniciais são a procissão em silêncio e a prostração.

1) A Celebração da Paixão do Senhor deve celebrar-se numa hora entre as 12 e as 15 horas. Se motivos pastorais sérios aconselharem outra hora, nunca seja antes do meio-dia, nem depois das 21h (9 da noite). A adoração da Cruz é feita a uma única cruz e de forma pessoal. No caso excepcional de extraordinária concorrência de fiéis que impeça que o rito se desenrole de forma digna e em tempo conveniente, então, poder-se-á propor uma adoração colectiva. Nunca, entretanto, a adoração simultânea de várias cruzes . A celebração conclui com a oração sobre o povo, sem despedida.

2) Neste dia não se celebra a Eucaristia. E a comunhão aos fiéis, com exceção dos doentes ausentes, é distribuída apenas durante a celebração. É proibido, também, celebrar qualquer sacramento, com exceção da Penitência e da Unção dos doentes. No sábado não há Missa, nem comunhão aos doentes, a não ser o viático. É proibida a celebração do Matrimônio e de outros sacramentos, para além do Sacramento da Penitência e da Unção dos doentes.

3) O sábado santo (2º dia do Tríduo) é um dia cheio de grande significado. Não é o "sábado de aleluia", mas o sábado do repouso junto do túmulo do Senhor, em que a igreja medita na Paixão, na Morte e na descida à mansão dos mortos do seu Redentor e aguarda, no jejum e na oração, a sua Ressurreição. Para além da reunião da comunidade para a oração, não há qualquer outra celebração, a não ser o carácter do próprio dia.

4) A Vigília (3º dia do Tríduo) é o cume do Tríduo. Realiza-se integralmente de noite, "uma noite de vela em honra do Senhor". Não faz parte do sábado, nem é, nem pode ser substituída por uma missa vespertina. "Por isso não deve escolher-se uma hora tão cedo que ela comece antes do início da noite, nem tão tardia que termine depois da aurora do Domingo. Esta regra é de interpretação estrita. Qualquer abuso ou costume contrário... é de reprovar...". A celebração deve começar, quanto possível, fora da igreja, à volta de uma fogueira. O círio pascal deve ser de cera, novo em cada ano, nunca fictício. A entrada na igreja deve ser apenas iluminada pelo círio que todos seguem (Presidente, ministros e fiéis). A liturgia da Palavra consta de 7 leituras do Antigo Testamento e duas do Novo. Excepcionalmente, poderá reduzir-se o número das leituras do A.T., nunca abaixo de três e sem omitir a leitura do Êxodo 14. O ponto alto é a celebração da Liturgia Eucarística. Evite-se que seja apressada.

5) Finalmente, a Missa do domingo de Páscoa deve celebrar-se com a máxima solenidade
Bibliografia:
 RIGO, Enio José. Tempo Litúrgico. Série Litúrgica, São Paulo: Paulinas,2009.
 BERGAMINI, Augusto. Cristo, Festa da Igreja. O Ano Litúrgico. São Paulo: Paulinas, 1994.
 BOROBIO, Dionisio. (org). A celebração na Igreja. São Paulo: Loyola, 1990.
 BECKHÄUSER, Alberto, OFM. Celebrar Bem. Petrópolis: Vozes, 2007.

Novidades!!!


Seminário Nacional de Liturgia – celebrando os
50 anos da Sacrosanctum Concilium

Por: Padre Marcelo Fróes – Liturgista

Em 04 de dezembro de 2013, a Igreja Católica Romana estará comemorando 50 anos da promulgação da Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia, Sacrosanctum Concilium (SC), primeiro documento votado e aprovado pelo Concílio Ecumênico Vaticano II,convocado pelo saudoso Papa João XXIII e continuado pelo seu sucessor Paulo VI. O concílio significou uma profunda renovação interna da Igreja e também em sua relação com outras Igrejas cristãs, com as outras religiões e com a sociedade.
E para celebrar tal acontecimento da história foi promovido pela Associação dos Liturgistas do Brasil (ASLI) e pela Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em parceria com a Rede de Animação Litúrgica (Rede Celebra), Centro de Liturgia, Revista de Liturgia: o Seminário Nacional de Liturgia, em comemoração aos 50 anos de promulgação da Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium.
Estiveram presentes cerca de 157 pessoas, entre bispos, presbíteros, leigos e leigas do Brasil e da América Latina. O Seminário teve como temática a Releitura da Sacrosantum Concilium, no Contexto do Concílio Vaticano II e nos Documentos Latino-Americanos. O Seminário de Liturgia aconteceu de 31 de janeiro a 04 de fevereiro.
O Seminário contou com a assessoria principal do professor de Teologia Sacramental na Pontifícia Faculdade Teológica da Universidade de São Anselmo em Roma, e professor de teologia no Instituto de Liturgia Pastoral de Pádua, Andrea Grillo, assim como outros já de nossa convivência, tais como: Pe. Oscar Beozzo, Frei José Ariovaldo, D. Armando Bocciol, D. Edmar Perón entre outros.
O evento tem por objetivo retomar as intuições e a teologia litúrgica na Sacrosanctum Concilium e demais constituições e decretos do Vaticano II e documentos pós-conciliares, no contexto da renovação da liturgia da América Latina e Caribe, à luz de Medellin, Puebla, Santo Domingo e Aparecida, em busca do rosto e do lugar da liturgia na vida e na missão da Igreja como serviço para a vida plena em Cristo e ao acontecimento do Reino de Deus.
De que trata afinal, a SC? O que encontramos nesta constituição? Traz os fundamentos teológicos e orientações para uma profunda renovação e compreensão da liturgia, isto é, da celebração eucarística e dos sacramentos, da celebração da Palavra de Deus, das exéquias, do ofício divino (liturgia das horas), do ano litúrgico, da música litúrgica, do espaço e da arte litúrgica... Não se trata de introduzir novidades, mas de realizar uma “volta às fontes” de nossa fé cristã: a sagrada escritura, a vida litúrgica nos primeiros séculos, os escritos dos Santos Padres. Era necessário retirar a “poeira” e os acréscimos que foram se acumulando durante séculos e que dificultavam o entendimento e a vivência da fé recebida das primeiras comunidades cristãs. Era necessário ainda que a liturgia falasse a língua de cada povo, de cada cultura, e que o povo de Deus recebesse a devida formação litúrgica.
Com seu documento sobre a Liturgia o Concílio Vaticano II quis responder à necessidade de uma reforma da Liturgia romana. Consciente de que não poderia realizar todo o trabalho que tal reforma iria exigir, quis apenas orientar para ele. Antes de dar orientações mais concretas e detalhadas para as diversas celebrações, resolveu estabelecer princípios gerais que deveriam nortear o trabalho da reforma a ser realizada depois do Concílio. Estes princípios gerais são dados no primeiro capítulo da SC; nos demais seguem, orientações para as diferentes celebrações e dimensões da Liturgia, baseados nos princípios estabelecidos.
Achou-se necessário que uma primeira coisa a ser esclarecida seria: Que Liturgia queremos? Depois de ter deixado clara a natureza da Liturgia, seria indicado o seu lugar no conjunto da vida da Igreja e dos fiéis, para concluir que todos os batizados teriam o direito e o dever de participar ativa, consciente e plenamente das ações litúrgicas, o que, no entanto, não seria possível sem formação litúrgica dos leigos e do clero.
Com tudo isso já fica evidente que o Concílio visava não apenas uma reforma externa dos ritos litúrgicos, mas uma nova compreensão da Liturgia, uma nova mentalidade litúrgica, uma renovação também interna, espiritual da Liturgia e da Igreja.
O Seminário nos deixa alguns questionamentos que gostaria de partilhar e refletir juntos: depois de 50 anos de renovação litúrgica conciliar, pergunta: mudou alguma coisa? O objetivo da SC foi atingido? Fomos capazes de assimilar e colocar em prática os princípios da SC? O que conseguimos realizar? O que falta fazer? Qual o próximo passo a ser dado? O que é mais urgente e viável no momento atual?
No próximo artigo continuaremos falando da SC. Um abraço!
Referências:
- Revista de Liturgia: Editorial, nº. 229, Janeiro/Fevereiro, 2012, pág. 3 e 4;
- LUTZ, Gregório, Sacrosanctum Concilium, in.: Revista de Liturgia, nº. 229, Janeiro/Fevereiro, 2012, pág. 19.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Espiritualidade do Leigo


Novena de Natal: uma Liturgia numa experiência de Fé!



Quando escutamos dizer que “o melhor das festas é a preparação”, podemos entender que estão falando daquele “gasto de tempo” necessário para se fazê-las acontecer. Quem já pôde juntar-se aos grupos de pastorais e movimentos para participar da preparação de suas novenas, aniversários de comunidades, festas de padroeiros e outros; sabe que para este povo, o corriqueiro ato de unir-se para pensar os detalhes, para preparar as rezas e celebrações, já é de certa maneira sentir a festa acontecendo. Podemos até dizer mais: “o melhor da festa é a vida que ela contém, desde sua preparação até sua comemoração”.

A novena de Natal vem carregada deste cuidado espiritual e comunitário, para bem preparar essa festa surgida no ambiente cristão a partir do século IV, e que se tornou para nós tão importante. Com certeza o Natal mexe profundamente com nossas vidas, por isso, reservamos aqueles nove dias que antecedem à FESTA (como muitas pessoas, especialmente do interior do Brasil se referem ao Natal, simplesmente chamando-o assim), para celebrarmos com mais gosto e desejo a vinda do GRANDE DIA DO SENHOR (Cf.: Is 2,12; Am 5,18; Zc 14, 1).

Esta prática popularizou-se bastante, fortalecendo os laços fraternos que ligam grupos e comunidades, servindo não só para manter viva a força simbólica do Tempo do Natal, mas também para recordar a toda Igreja, que a vida litúrgica dos que crêem em Cristo, suas festas e devoções, só tem verdadeiro sentido enquanto celebra a vida latente do mundo, seus gritos por saúde, justiça social e espiritual, cuidados maternais e paternais com a ecologia criada por Deus e mais, suas alegrias e vitórias a partir de lutas que são travadas para libertarem o ser humano de todo tipo de escravidão. Não podemos esquecer que a novena deve ligar o mistério de Cristo ao mistério da vida que nos rodeia, sem ilusões e alienações, mas assumindo profeticamente a chegada do reino de Deus, que requer a nossa mudança de atitudes (Mc 1, 15).

No entanto é fundamental que a vivência desta novena preparada para a Festa do Natal do Senhor, não seja a sua celebração antecipada. Não sirva para construir no coração e na mente de quem dela participa, uma festa de Natal antes da hora, fazendo até com que muitas pessoas encham esta novena de tanto brilho, a ponto de deixarem de celebrar com a comunidade a festa tão desejada, o Natal, sua oitava e seu tempo próprio de vivência até o domingo do Batismo do Senhor. Às vezes, estes “noveneiros”, por este tipo de atitude, acabam não percebendo que estão de certa maneira invertendo o verdadeiro sentido para o qual esta novena foi criada: o de desejar mais intensamente a vinda do Senhor.

Sobre o sentido das novenas, o ‘Diretório Sobre Piedade Popular e Liturgia’, da Congregação para o Culto Divino, diz no nº 103: “A novena do Natal surgiu para comunicar aos fiéis as riquezas de uma Liturgia à qual eles não tinham fácil acesso. A novena de Natal de fato exerceu uma função salutar e ainda pode continuar a exercê-la. Entretanto, em nosso tempo, no qual ficou mais fácil a participação do povo nas celebrações litúrgicas, é desejável que entre os dias 17 a 23 de dezembro a celebração das Vésperas ganhe caráter solene, com as “antífonas maiores”, e os fieis sejam convidados a participar delas. Tal celebração, antes ou depois da qual poderão ser valorizados alguns elementos caros à piedade popular, constituiria uma excelente “novena de Natal” plenamente litúrgica e atenta às exigências da piedade popular. Dentro da celebração das Vésperas podem ser desenvolvidos alguns elementos já previstos (por exemplo, homilia, uso do incenso, adaptação das intercessões.” Por isso, se faz necessário que as equipes de liturgia das dioceses, paróquias e comunidades, dêem mais importância ao sentido, teologia e ritualidade que esta novena carrega.

A participação das famílias, que se colocam à disposição de Deus e dos irmãos que as visitam, para rezarem, cantarem, escutarem a santa Palavra, é um aspecto muito positivo nas novenas. Por isso, não se deve deixar de aproveitar a oportunidade de neste tempo, sairmos missionariamente de nossos templos e irmos ao encontro daquelas famílias, que muitas vezes não compartilham conosco a vida litúrgica de nossas comunidades, mas dividem conosco os sentimentos de esperança por uma nova vida, mais plena de sentido e feliz em todos os aspectos.

Voluntaria ou involuntariamente, estas famílias procuram escapar rebeldemente das programações televisivas tão dominadoras e que não deixam fôlego para momentos familiares e comunitários. É comum que as novenas sejam momentos de comoção na família, por ser, não raramente o único tempo durante o ano em que se reúnem para rezar juntos e refletir sobre suas vidas. Quem coordena, deve estar sempre preparado para lidar com os sentimentos destas pessoas, que nestas celebrações, acabam se lembrando de familiares que já morreram, ou daqueles que se encontram de certa maneira escravos da doença, da droga, do ódio... e que causam a toda a família um sofrimento comum.

Ir às casas durante as novenas, firma nossa caminhada com o projeto de Jesus e nos recorda que as primeiras comunidades cristãs nasceram de reuniões domésticas, simples e informais, cheias de uma rica espiritualidade e que, grávidas do desejo pela vinda do Senhor, entoavam o MARANATHÁ (Cf. I Cor 16, 22; Ap 22,20; Rm 13,12), como o canto dos que aspiravam ardentemente a volta definitiva do Cristo, para que a sua promessa de vida plena e abundante se tornasse uma realidade nesta terra.

Com a renovação litúrgica iniciada pelo Concílio Vaticano II, fomos chamados a incrementar a liturgia “especialmente no que se refere à administração do sacramentos, aos sacramentais, às procissões, à língua litúrgica, à música sacra e às artes,...(SC 39), para melhor atender aos apelos que não só a Igreja de hoje nos faz, mas para responder ao mundo em que vivemos. Por isso nossas novenas, terços, procissões, missões e especialmente a Celebração da Eucaristia, devem ser melhor adaptadas à realidade do povo celebrante, que continua a responder ao apelo que Cristo fez: façam isto para manter viva a minha memória (Cf. I Cor 11,23-27; Lc 22, 19-20; ...e nós o faremos até que ele venha.

Dizemos isto para lembrar que a novena do Natal está entre os sacramentais, que segundo a SC nº 60, “são sinais sagrados, pelos quais, à imitação dos sacramentos, são significados efeitos principalmente espirituais, que se obtêm pela oração da Igreja. Pelos sacramentais os homens e mulheres se dispõem para receber o efeito principal dos sacramentos e são santificados as diversas circunstâncias da sua vida. Sua liturgia permite que a graça divina, que promana do mistério pascal da paixão, morte e ressurreição de Cristo, do qual recebem a sua eficácia, santifique todos os acontecimentos da vida daqueles que o recebem com a devida disposição.
Empenhados em manter viva a beleza ritual deste tempo tão repleto de esperança, que é o Advento, com seus símbolos, textos bíblicos e eucológicos, seus cantos e novenas, continuemos e arder por dentro (Lc 24,32), prontos e vigilantes (Mc 13,35), alegres na oração (I Ts 5,16), despertos e cheios da certeza de que nosso Salvador vem, para libertar e reconciliar o mundo em seu amor. “Vem, Senhor, vem nos salvar, com teu povo, vem caminhar!”






Fontes:

Sacrossanctum Concilium – Constituição sobre a Liturgia do Concílio Vaticano II
Diretório Sobre Piedade Popular e Liturgia, da Congregação para o Culto Divino
Tempo para amar – Penha Carpanedo e Macelo Barros - Paulus
Celebrar com símbolos – Ione Bust – Paulinas
Preparando Advento e Natal – Ione Buyst – Paulinas
Natal, festa de luz e de alegria – Antônio Sagrado Bogaz - Paulus

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Espiritualidade do Leigo

VERBUM DOMINI: DEO GRATIAS!


No mês de outubro de 2008, ocorreu um encontro de bispos do mundo inteiro, assim como representantes de Igrejas Evangélicas Cristãs, Ortodoxas e de Judeus. Havia também leigos e leigas, religiosas e religiosas. Essa reunião levou os presentes a refletirem sobre a Palavra de Deus na vida do cristão, e a missão da Igreja diante desta palavra.
No fim, domingo 26 de outubro de 2008, enviaram uma “Declaração” belíssima a todos os cristãos. Insistiram em dizer que a palavra de Deus não é só o texto da Bíblia, e não é um texto morto, mas é Deus mesmo que fala àquele que abre o seu coração lendo, na oração. Ou seja, a Palavra de Deus tem uma voz (a Revelação), um rosto (Cristo), uma casa (a Igreja), um caminho (a Missão).
Diz o cardeal D. Pedro Odilo Scherer, uns dos delegados brasileiros que, o sínodo é um momento de semeadura, que trará grandes frutos para a Igreja.
Como Igrejas somos convocados pela Palavra de Deus, alimentar-se e vive dela e ter a missão de servir à Palavra de Deus, levando-a a todos.
Não há como não lembrar outro documento sobre a Palavra de Deus, chamado “Dei Verbum”, de poucas páginas, porém decisivas, para toda a transformação da vida cristã, a partir do Concílio Vaticano II (1965). Foi a partir da Dei Verbum que a reforma litúrgica deu amplo espaço à Palavra de Deus, na missa. À luz da Dei Verbum, também a catequese colocou a Sagrada Escritura na mão dos catequizandos. As ciências bíblicas tiveram, a partir da Dei Verbum, um grande avanço. Esse documento fez surgirem os círculos bíblicos, colocou enfim a Bíblia Sagrada nas mãos dos católicos, antes só presente nas mãos dos pastores que, por sinal, passaram a ser designados como “evangélicos”, como se somente eles o fossem.
A Dei Verbum já tem quase 50 anos de caminhada. E não podemos dizer que se esgotaram suas inspirações e conseqüências. A nova Exortação Pós-Sinodal Verbum Domini não exclui, antes retoma e avança na mesma direção da Dei Verbum, apresentando-a a nós todos, como passo conseqüente de toda a caminhada litúrgica e pastoral que fizemos. Agora, animados pela força missionária proposta pela Conferência de Aparecida, deveremos retomar a Palavra de Deus com mais empenho, como um mergulho radical na intimidade de Deus, a partir da Palavra, deixando-nos, literalmente, conduzir pela Palavra, vale dizer, pelo próprio Deus.
O próprio Bento XVI que esteve presente nesse encontro apresentou como resultado final, uma lista de cinqüenta proposições. Ele retoma essas reflexões, apontando rumos para toda a Igreja. A exortação é dividida em três partes. A primeira traz a fundamentação teológica: a Palavra é Cristo presente no mundo. A segunda considera a Igreja como espaço da Palavra. E a terceira parte convoca toda a Igreja a anunciar a Palavra ao mundo, motivando a justiça e a caridade. O Papa elege como destinatários privilegiados da Palavra os jovens, os migrantes, os sofredores, os pobres. O documento nos convida a sair dos limites da própria Igreja, oferecendo ao mundo uma Palavra que é capaz de dialogar com a cultura atual e conduzir o mundo as relações mais justas e cuidadosas com relação à natureza, pois, todo ser criado é iluminado pelo Verbo.

Em relação à Liturgia apresento algumas cápsulas do documento:

Escritura e Liturgia: "Exorto os Pastores da Igreja e os agentes pastorais a fazer com que todos os fiéis sejam educados para saborear o sentido profundo da Palavra de Deus que está distribuída ao longo do ano na liturgia, mostrando os mistérios fundamentais da nossa fé." (52)
A homilia: "É preciso que os pregadores tenham familiaridade e contato assíduo com o texto sagrado; preparem-se para a homilia na meditação e na oração, a fim de pregarem com convicção e paixão." (59)
Celebrações da Palavra de Deus: "Os Padres sinodais exortaram todos os Pastores a difundir, nas comunidades a eles confiadas, os momentos de celebração da Palavra. (...) Tal prática não pode deixar de trazer grande proveito aos fiéis, e deve considerar-se um elemento importante da pastoral litúrgica." (65)
Acústica: "Para favorecer a escuta da Palavra de Deus, não se devem menosprezar os meios que possam ajudar os fiéis a prestar maior atenção. Neste sentido, é necessário que, nos edifícios sagrados, nunca se descuide a acústica, no respeito das normas litúrgicas e arquitetônicas." (68)
Canto litúrgico: "No âmbito da valorização da Palavra de Deus durante a celebração litúrgica, tenha-se presente também o canto nos momentos previstos pelo próprio rito, favorecendo o canto de clara inspiração bíblica capaz de exprimir a beleza da Palavra divina por meio de um harmonioso acordo entre as palavras e a música. Neste sentido, é bom valorizar aqueles cânticos que a tradição da Igreja nos legou e que respeitam este critério; penso particularmente na importância do canto gregoriano." (70)
Leitura Orante da Bíblia: "Nos documentos que prepararam e acompanharam o Sínodo, falou-se dos vários métodos para se abeirar, com fruto e na fé, das Sagradas Escrituras. Todavia prestou-se maior atenção à lectio divina, que 'é verdadeiramente capaz não só de desvendar ao fiel o tesouro da Palavra de Deus, mas também de criar o encontro com Cristo, Palavra divina viva'." (87)

Por mais 50 anos!

Meu desejo é que a Exortação Verbum Domini snão corra o risco de ser acolhida como uma novidade que passa, “mais um documento” que fica na estante ou na gaveta, como fazem com as novidades descartáveis que compramos nas lojas. A gente sabe que os Meios de Comunicação não valorizam nem divulgam os documentos da Igreja. Para a imprensa mundial, uma notícia de um pronunciamento do Papa sobre preservativos é destaque de primeira página, enquanto, um documento, como esse, ganha duas linhas, num canto qualquer, sem importância. Será necessário, então, que os padres, religiosas, as lideranças de todos os grupos de pastoral, grupos de reflexão, movimentos, comecem já a ler e estudar as páginas desse documento. Que seja assunto das homilias, das reuniões e dos planejamentos. Que o convite do Santo Padre chegue, pouco a pouco, a toda nossa gente através da ação evangelizadora, missionária e espiritual.
Meus amados leitores vamos aproveitar esta pérola que a Igreja hoje nos brinda. Sua novidade tem o sabor e a surpresa, a oportunidade e a eternidade que tem o próprio Verbo encarnado, quando se faz semente e brota, como planta nova, no terreno bem preparado do coração de cada um de nós.
Termino esse artigo, com essa belíssima passagem do livro de apocalipse, que nos lembra que pelo batismo somos todos profetas, anunciadores do Reino e de sua Palavra: “Ide ao mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda a criatura!” (Mc 16,15).

“A voz do céu que eu ouvira tornou então a falar-me: ‘Vai, toma o livrinho aberto da mão do Anjo que está em pé sobre o mar e sobre a terra.’ Fui, pois, ao Anjo e lhe pedi que me entregasse o livrinho. Então, ele me disse: ‘Toma-o e devora-o; ele te amargará o estômago, mas em tua boca será doce como mel.’ Tomei o livrinho da mão do Anjo e o devorei: na boca, era doce como mel; quando o engoli, porém, meu estômago se tornou amargo’” (Ap 10,8-11).

Um abraço!

Fontes:

• Voz do Pastor: Deus nos fala e nós respondemos. D. Frei João Bosco Barbosa de Souza, OFM – Bispo de União da Vitória – PR
• Texto sobre o Sínodo da Palavra do Pe. Bruno Cadart.

Eu vou e você?

Novidades