quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Espiritualidade do Leigo

Sacramentalidade da Liturgia, uma perspectiva pastoral!                                                                  Pe. Marcelo Fróes
           
Sacramentalidade é um conceito aplicado a toda a liturgia, para expressar que ela goza da mesma natureza dos sacramentos, e deriva da própria “economia da salvação”. Significa falar de modo pelo qual Deus nos salva. Esse modo é sacramental, isto é, mediado por uma linguagem simbólica. Em sentido profundo, não existe outra forma de comunicação com o ser humano.
            Jesus é o sacramento do Pai, e da mesma forma se entende a Igreja: é o sacramento de Cristo, na condição de seu Corpo e continuadora da sua missão. A sacramentalidade da economia da salvação é muito bem expressa pela LG 1 e pela SC 5-6. Dessa mesma economia deriva a sacramentalidade da liturgia, enquanto celebra a salvação e prolonga a ação salvífica de Cristo,o sacramento primeiro.
            Três aspectos delineiam a sacramentalidade da liturgia: a expressão significativa, o fato valorizado e a intercomunhão solidária. Fica claro que a expressão significativa são os ritos e símbolos da celebração cristã; o fato valorizado é o próprio mistério de Cristo; a intercomunhão solidária, a Igreja como Corpo do Senhor, do qual ele mesmo é a cabeça. A expressão significativa comporta duas dimensões: uma sensível e a outra não sensível. A parte sensível é o que vemos, tocamos, cheiramos, degustamos e ouvimos. A parte não sensível é o próprio mistério que confere sentido e densidade. Uma se orienta para a outra: a água que se vê e se toca conduz à purificação dos pecados, à comunhão com a morte e a ressurreição do Senhor, ao Cristo “água viva” que sacia nossa sede. O fato valorizado é a própria salvação realizada na pessoa de Jesus Cristo. É o “mistério da fé” que perpassa toda a liturgia e fecunda os sinais. Esse mistério, testemunhado pela Escritura e pela Tradição, não está encerrado no passado. Dois movimentos lhe dão acesso: ‘movimento descendente’- ele vem ao encontro da comunidade que celebra, tocando-a por meio da celebração. ‘movimento ascendente’ – ela, por sua vez, vai ao seu encontro por meio da ação memorial que realiza por meio dos ritos e preces (cf. SC. 48).
            A comunidade de fé é o sujeito da ação litúrgica. Mas essa ação só tem sentido em estreita comunhão com Cristo. E ele quem age nas celebrações por meio das pessoas dos ministros e da assembléia. A ação da Igreja se entende na perspectiva da íntima comunhão com o Senhor, com o seu corpo místico. Ao movimento ascendente da súplica e do louvor e adoração corresponde sempre ao movimento descendente da salvação, da bênção, da vida plena que Deus oferece.
            Que significa então participar plenamente da liturgia, levando em conta a sua sacramentalidade? Significa mergulhar na celebração, ação eminentemente simbólica, jogo de sinais. Tudo começa pelo sentido, que são a porta de entrada para uma participação efetiva.
            A falta de sacramentalidade corresponde à falta de participação. Somente se participa do mistério mediante uma dinâmica sacramental. Não se participa do mistério de Cristo por uma imagem projetada ou por um simulacro dos símbolos e ritos da Igreja. Os sinais precisam ser verdadeiros. Uma imitação de vela ou de flor não remete a nada. Além disso, é necessário permitir, favorecer a sua verdade. Um canto mal entoado por preguiça de freqüentar ensaios, uma fração do pão que não se vê uma leitura mal proclamada ou uma aspersão que não se sente não comunicarão o mistério.
            Jesus continua hoje, por meio da Igreja e da liturgia, sua obra redentora. Sentado à direita do Pai, ele continua a agir sacramentalmente: na Igreja, nos sacramentos, nas demais celebrações da liturgia, na missão de evangelizar e anunciar o reino de Deus.      

Fontes:

-BUYST, I. alguém me tocou! Sacramentalidade da Liturgia na Sacrosanctum  Concilium (SC), constituição conciliar sobre a Sagrada liturgia. São Paulo, n. 176, 2003;
- BARAÚNA, G. A participação ativa, princípio inspirador e diretivo da constituição litúrgica. IN: estudos e comentários em torno da constituição litúrgica do Concílio Vaticano II. Petrópolis: Vozes, 1964.
- LIMA, Pe. Danilo César dos Santos. O Uso dos aparatos técnicos nas celebrações. In: Revista Vida Pastoral, mês de Julho-Agosto, 2012, n. 285, p.21-25.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Espiritualidade do Leigo

A Alma que busca à Deus!

(...)Esta fome, que me acompanha por tantos anos, era a vontade de enxergar o que estava além de mim. Tentei de diversas maneiras, e agora encontrei o único caminho certo: através de Deus.


A alma procura Deus, como o ar quente busca as alturas, e os rios correm para o mar. A alma tem dois poderes: o desejo de buscar, e a capacidade de lutar por este desejo.

E a alma nunca perde seu caminho, da mesma maneira que a água não corre montanha acima. Por isso, todas as almas estarão em Deus, não importa quanto tempo isto demore.

O sal não perde suas propriedades, mesmo quando misturado a todas as águas do oceano. A alma não perde esta fome de Deus; ela é eterna, e um dia será saciada.

A alma jamais deixara de buscar a Deus. E quando o encontrar, irá descobrir que Ele também a estava buscando.»





Kahlil Gibran, em "Cartas de amor do profeta"

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Espiritualidade Litúrgica


Sendo o Ano Litúrgico divididos em três Ciclos: Ciclo do Natal, Ciclo da Páscoa e Tempo Comum, apresento as principais festas que incrementam aos ciclos:



08/01/12 - Epifania do Senhor
09/01/12 - Batismo do Senhor
22/02/12 - 4ª feira de Cinzas
08/04/12 - Páscoa da Ressurreição
20/05/12 - Ascensão do Senhor
27/05/12 - Pentecostes
03/06/12 - Santíssima Trindade
07/06/12 - Corpus Christi
15/06/12 - Sagrado Coração de Jesus
01/07/12 - São Pedro e São Paulo
19/08/12 - Assunção de N. Senhora
04/11/12 - Todos os Santos
25/11/12 - Cristo Rei
02/12/12 - 1º Domingo do Advento
25/12/12 - Natal do Senhor
30/12/12 - Sagrada Família

Espiritualidade Litúrgica


Oração da Equipe de Liturgia

Divino Espírito Santo, iluminai as nossas mentes, transformai os nossos corações! Que este estudo nos ajude a mergulhar no mistério da fé e da vida celebrada em comunidade. Dai-nos força e coragem, sabedoria e criatividade. Queremos organizar uma Pastoral Litúrgica dinâmica, a fim de que todo o vosso povo participe da liturgia de maneira mais plena, ativa e consciente.
Amém

segunda-feira, 5 de março de 2012

Formação Litúrgica


TRÍDUO PASCAL- Espiritualidade e Preparação Orante

O tríduo pascal é o período de três dias durante o qual os cristãos celebram o centro de sua fé, a paixão, morte e a ressurreição de Jesus Cristo: o SEU mistério pascal! Esse termo vem do latim (tres “três” e dies “dia”).
O tríduo pascal começa na quinta-feira santa e termina no dia da Páscoa, depois das vésperas. Esses três dias constituem o centro de gravidade de todo o ano litúrgico. Sucessivamente, os cristãos comemoram a última ceia de Cristo com os seus discípulos, a prisão, crucificação e seu sepultamento e depois a sua ressurreição dentre os mortos.
Esses três dias formam um conjunto fortemente simbólico: recordam aqueles acontecimentos evocados no Evangelho de João. Jesus, tendo expulsado os vendilhões do Templo é interpelado pelos judeus para que manifeste a autoridade em nome de quem realizou esse gesto em Jerusalém, ao que lhes responde: “Destruí esse santuário e em três dias eu o reconstruirei”. Prefigurando a sua ressurreição, o evangelista interpreta: “Ele falava do santuário de seu corpo” (Jo 2, 18-21).
São três aspectos de uma única páscoa: Páscoa da ceia (5ª feira); Páscoa da Cruz (6ª feira); Páscoa da Ressurreição (Vigília Pascal).

Por que esses três dias?

A Igreja celebra num único e mesmo movimento a paixão, morte e ressurreição de Cristo. Ela manifesta assim a relação essencial entre a maneira de Jesus viver e morrer, “dando a sua vida por seus amigos” (Jo 15, 12), e sua ressurreição dentre os mortos. Isso manifesta que a existência de Jesus, tal como foi vivida até a cruz, é acolhida e salva por Deus.

O que é celebrado na Quinta-feira Santa?

Na noite da quinta-feira antes da Páscoa, nós celebramos a Ceia, a última refeição de Jesus com os seus discípulos, na qual lhes anuncia que vai entregar a sua vida livremente e por amor. Essa entrega é significada de maneira diferente pelos quatro Evangelhos. Marcos, Mateus e Lucas mostram Jesus partilhando com os Doze pão e vinho, que representam o seu corpo e o seu sangue.
No Evangelho de João, esta cena está ausente, e a entregue de Jesus é traduzida pelo gesto do lava-pés. Jesus assume assim a situação de servo e deixa aos seus discípulos este testamento: “Pois é um exemplo que eu vos dei: o que fiz por vós, fazei-o vós também” (Jo 13, 15).
Fiel à memória de Cristo, a Igreja procede, na noite da Quinta-feira santa, ao rito do lava-pés e celebra solenemente a Eucaristia. No fim da missa, os fieis prosseguem a sua oração acompanhando Jesus na noite de sua prisão no Jardim das Oliveiras. ‘Não podeis vigiar uma hora comigo?’ pergunta Jesus no Getsêmani. É o contrário de tudo o que o homem religioso espera de Deus.

A Sexta-feira Santa é um dia de morte?

Não apenas isso, porque nesse dia os cristãos celebram o amor extremo de Deus. Eles celebram a “kénose” de Deus, sua humilhação que vai até a cruz para reunir os homens. Nesse gesto radical de humildade, que inverte a visão pagã de um Deus dominador, os cristãos recebem a revelação de um Deus que é amor.
Durante este dia, os cristãos acompanham Jesus em sua Paixão, relendo comunitariamente o relato de sua prisão e morte. Ao longo do ofício, a liturgia prevê um gesto de adoração da cruz:símbolo fiel de salvação e da vitória sobre o pecado. Desde o fim da Idade Média, a prática da via-sacra se difundiu largamente. Isso acontece depois do meio-dia da sexta-feira e consiste numa peregrinação em catorze (ou quinze) estações.

O Sábado Santo é um dia “vazio”?

O Sábado Santo é o único dia do ano litúrgico em que não se realiza nenhum ofício coletivo, exceto a liturgia das horas, ou Ofício Divino das Comunidades. Nenhum sacramento é celebrado. É um dia de silêncio e de recolhimento, um dia de espera.
A Tradição o associa “à descida aos infernos”, particularmente presente na espiritualidade bizantina: o Cristo reúne os mortos que permaneceram longe de Deus, a começar por Adão e Eva, para associá-los à libertação iminente de sua ressurreição. O Sábado santo é também consagrado aos preparativos da Festa da Páscoa nas famílias e comunidades cristãs.

O que é celebrado na vigília pascal?

Na Páscoa – celebrada tanto na liturgia noturna do Sábado santo como no domingo da Páscoa –, a Igreja celebra a ressurreição de Jesus, sua “passagem” da morte à vida. Segundo a fé cristã, Deus não deixou seu Filho crucificado na cruz. “Deus o ressuscitou”, “Deus o glorificou”, “Deus o restabeleceu” da morte – estas são as palavras em grego utilizadas pelo Novo Testamento – quem deu a sua vida por amor ao seu Pai e aos homens.
Para os cristãos, essa vitória sobre a morte concerne toda a humanidade. “Pois sabemos: aquele que ressuscitou o Senhor Jesus, também nos ressuscitará com Jesus”, escreve Paulo aos Coríntios (2Cor 4, 14). Este anúncio de uma vida em abundância, mais forte que a morte, é a salvação, a “boa nova” festejada na Páscoa.
Orientações Litúrgicas para uma preparação Orante:
As orientações litúrgicas apontam todas para uma estreita relação entre a celebração da Missa da Ceia do Senhor e a Celebração da Paixão: "O Sacrário deve estar completamente vazio ao começar a celebração. Deverão ser consagrado nesta Missa as hóstias necessárias para a comunhão dos fiéis, e para que o clero e o povo possam comungar no dia seguinte... Para a reserva do Santíssimo... recomenda-se que não se perca de vista a sobriedade e austeridade que correspondem à Liturgia destes dias, evitando ou corrigindo qualquer forma de abuso... Com efeito a capela da reposição é preparada não para representar a "sepultura do Senhor", mas para guardar o pão eucarístico para a comunhão que será distribuída na Sexta-Feira na Paixão do Senhor".
A Missa da Ceia do Senhor nem tem bênção, nem despedida. E a Celebração da Paixão, não tem canto de entrada, nem saudação do Presidente. Os ritos iniciais são a procissão em silêncio e a prostração.

1) A Celebração da Paixão do Senhor deve celebrar-se numa hora entre as 12 e as 15 horas. Se motivos pastorais sérios aconselharem outra hora, nunca seja antes do meio-dia, nem depois das 21h (9 da noite). A adoração da Cruz é feita a uma única cruz e de forma pessoal. No caso excepcional de extraordinária concorrência de fiéis que impeça que o rito se desenrole de forma digna e em tempo conveniente, então, poder-se-á propor uma adoração colectiva. Nunca, entretanto, a adoração simultânea de várias cruzes . A celebração conclui com a oração sobre o povo, sem despedida.

2) Neste dia não se celebra a Eucaristia. E a comunhão aos fiéis, com exceção dos doentes ausentes, é distribuída apenas durante a celebração. É proibido, também, celebrar qualquer sacramento, com exceção da Penitência e da Unção dos doentes. No sábado não há Missa, nem comunhão aos doentes, a não ser o viático. É proibida a celebração do Matrimônio e de outros sacramentos, para além do Sacramento da Penitência e da Unção dos doentes.

3) O sábado santo (2º dia do Tríduo) é um dia cheio de grande significado. Não é o "sábado de aleluia", mas o sábado do repouso junto do túmulo do Senhor, em que a igreja medita na Paixão, na Morte e na descida à mansão dos mortos do seu Redentor e aguarda, no jejum e na oração, a sua Ressurreição. Para além da reunião da comunidade para a oração, não há qualquer outra celebração, a não ser o carácter do próprio dia.

4) A Vigília (3º dia do Tríduo) é o cume do Tríduo. Realiza-se integralmente de noite, "uma noite de vela em honra do Senhor". Não faz parte do sábado, nem é, nem pode ser substituída por uma missa vespertina. "Por isso não deve escolher-se uma hora tão cedo que ela comece antes do início da noite, nem tão tardia que termine depois da aurora do Domingo. Esta regra é de interpretação estrita. Qualquer abuso ou costume contrário... é de reprovar...". A celebração deve começar, quanto possível, fora da igreja, à volta de uma fogueira. O círio pascal deve ser de cera, novo em cada ano, nunca fictício. A entrada na igreja deve ser apenas iluminada pelo círio que todos seguem (Presidente, ministros e fiéis). A liturgia da Palavra consta de 7 leituras do Antigo Testamento e duas do Novo. Excepcionalmente, poderá reduzir-se o número das leituras do A.T., nunca abaixo de três e sem omitir a leitura do Êxodo 14. O ponto alto é a celebração da Liturgia Eucarística. Evite-se que seja apressada.

5) Finalmente, a Missa do domingo de Páscoa deve celebrar-se com a máxima solenidade
Bibliografia:
 RIGO, Enio José. Tempo Litúrgico. Série Litúrgica, São Paulo: Paulinas,2009.
 BERGAMINI, Augusto. Cristo, Festa da Igreja. O Ano Litúrgico. São Paulo: Paulinas, 1994.
 BOROBIO, Dionisio. (org). A celebração na Igreja. São Paulo: Loyola, 1990.
 BECKHÄUSER, Alberto, OFM. Celebrar Bem. Petrópolis: Vozes, 2007.

Novidades!!!


Seminário Nacional de Liturgia – celebrando os
50 anos da Sacrosanctum Concilium

Por: Padre Marcelo Fróes – Liturgista

Em 04 de dezembro de 2013, a Igreja Católica Romana estará comemorando 50 anos da promulgação da Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia, Sacrosanctum Concilium (SC), primeiro documento votado e aprovado pelo Concílio Ecumênico Vaticano II,convocado pelo saudoso Papa João XXIII e continuado pelo seu sucessor Paulo VI. O concílio significou uma profunda renovação interna da Igreja e também em sua relação com outras Igrejas cristãs, com as outras religiões e com a sociedade.
E para celebrar tal acontecimento da história foi promovido pela Associação dos Liturgistas do Brasil (ASLI) e pela Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em parceria com a Rede de Animação Litúrgica (Rede Celebra), Centro de Liturgia, Revista de Liturgia: o Seminário Nacional de Liturgia, em comemoração aos 50 anos de promulgação da Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium.
Estiveram presentes cerca de 157 pessoas, entre bispos, presbíteros, leigos e leigas do Brasil e da América Latina. O Seminário teve como temática a Releitura da Sacrosantum Concilium, no Contexto do Concílio Vaticano II e nos Documentos Latino-Americanos. O Seminário de Liturgia aconteceu de 31 de janeiro a 04 de fevereiro.
O Seminário contou com a assessoria principal do professor de Teologia Sacramental na Pontifícia Faculdade Teológica da Universidade de São Anselmo em Roma, e professor de teologia no Instituto de Liturgia Pastoral de Pádua, Andrea Grillo, assim como outros já de nossa convivência, tais como: Pe. Oscar Beozzo, Frei José Ariovaldo, D. Armando Bocciol, D. Edmar Perón entre outros.
O evento tem por objetivo retomar as intuições e a teologia litúrgica na Sacrosanctum Concilium e demais constituições e decretos do Vaticano II e documentos pós-conciliares, no contexto da renovação da liturgia da América Latina e Caribe, à luz de Medellin, Puebla, Santo Domingo e Aparecida, em busca do rosto e do lugar da liturgia na vida e na missão da Igreja como serviço para a vida plena em Cristo e ao acontecimento do Reino de Deus.
De que trata afinal, a SC? O que encontramos nesta constituição? Traz os fundamentos teológicos e orientações para uma profunda renovação e compreensão da liturgia, isto é, da celebração eucarística e dos sacramentos, da celebração da Palavra de Deus, das exéquias, do ofício divino (liturgia das horas), do ano litúrgico, da música litúrgica, do espaço e da arte litúrgica... Não se trata de introduzir novidades, mas de realizar uma “volta às fontes” de nossa fé cristã: a sagrada escritura, a vida litúrgica nos primeiros séculos, os escritos dos Santos Padres. Era necessário retirar a “poeira” e os acréscimos que foram se acumulando durante séculos e que dificultavam o entendimento e a vivência da fé recebida das primeiras comunidades cristãs. Era necessário ainda que a liturgia falasse a língua de cada povo, de cada cultura, e que o povo de Deus recebesse a devida formação litúrgica.
Com seu documento sobre a Liturgia o Concílio Vaticano II quis responder à necessidade de uma reforma da Liturgia romana. Consciente de que não poderia realizar todo o trabalho que tal reforma iria exigir, quis apenas orientar para ele. Antes de dar orientações mais concretas e detalhadas para as diversas celebrações, resolveu estabelecer princípios gerais que deveriam nortear o trabalho da reforma a ser realizada depois do Concílio. Estes princípios gerais são dados no primeiro capítulo da SC; nos demais seguem, orientações para as diferentes celebrações e dimensões da Liturgia, baseados nos princípios estabelecidos.
Achou-se necessário que uma primeira coisa a ser esclarecida seria: Que Liturgia queremos? Depois de ter deixado clara a natureza da Liturgia, seria indicado o seu lugar no conjunto da vida da Igreja e dos fiéis, para concluir que todos os batizados teriam o direito e o dever de participar ativa, consciente e plenamente das ações litúrgicas, o que, no entanto, não seria possível sem formação litúrgica dos leigos e do clero.
Com tudo isso já fica evidente que o Concílio visava não apenas uma reforma externa dos ritos litúrgicos, mas uma nova compreensão da Liturgia, uma nova mentalidade litúrgica, uma renovação também interna, espiritual da Liturgia e da Igreja.
O Seminário nos deixa alguns questionamentos que gostaria de partilhar e refletir juntos: depois de 50 anos de renovação litúrgica conciliar, pergunta: mudou alguma coisa? O objetivo da SC foi atingido? Fomos capazes de assimilar e colocar em prática os princípios da SC? O que conseguimos realizar? O que falta fazer? Qual o próximo passo a ser dado? O que é mais urgente e viável no momento atual?
No próximo artigo continuaremos falando da SC. Um abraço!
Referências:
- Revista de Liturgia: Editorial, nº. 229, Janeiro/Fevereiro, 2012, pág. 3 e 4;
- LUTZ, Gregório, Sacrosanctum Concilium, in.: Revista de Liturgia, nº. 229, Janeiro/Fevereiro, 2012, pág. 19.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Espiritualidade do Leigo


Novena de Natal: uma Liturgia numa experiência de Fé!



Quando escutamos dizer que “o melhor das festas é a preparação”, podemos entender que estão falando daquele “gasto de tempo” necessário para se fazê-las acontecer. Quem já pôde juntar-se aos grupos de pastorais e movimentos para participar da preparação de suas novenas, aniversários de comunidades, festas de padroeiros e outros; sabe que para este povo, o corriqueiro ato de unir-se para pensar os detalhes, para preparar as rezas e celebrações, já é de certa maneira sentir a festa acontecendo. Podemos até dizer mais: “o melhor da festa é a vida que ela contém, desde sua preparação até sua comemoração”.

A novena de Natal vem carregada deste cuidado espiritual e comunitário, para bem preparar essa festa surgida no ambiente cristão a partir do século IV, e que se tornou para nós tão importante. Com certeza o Natal mexe profundamente com nossas vidas, por isso, reservamos aqueles nove dias que antecedem à FESTA (como muitas pessoas, especialmente do interior do Brasil se referem ao Natal, simplesmente chamando-o assim), para celebrarmos com mais gosto e desejo a vinda do GRANDE DIA DO SENHOR (Cf.: Is 2,12; Am 5,18; Zc 14, 1).

Esta prática popularizou-se bastante, fortalecendo os laços fraternos que ligam grupos e comunidades, servindo não só para manter viva a força simbólica do Tempo do Natal, mas também para recordar a toda Igreja, que a vida litúrgica dos que crêem em Cristo, suas festas e devoções, só tem verdadeiro sentido enquanto celebra a vida latente do mundo, seus gritos por saúde, justiça social e espiritual, cuidados maternais e paternais com a ecologia criada por Deus e mais, suas alegrias e vitórias a partir de lutas que são travadas para libertarem o ser humano de todo tipo de escravidão. Não podemos esquecer que a novena deve ligar o mistério de Cristo ao mistério da vida que nos rodeia, sem ilusões e alienações, mas assumindo profeticamente a chegada do reino de Deus, que requer a nossa mudança de atitudes (Mc 1, 15).

No entanto é fundamental que a vivência desta novena preparada para a Festa do Natal do Senhor, não seja a sua celebração antecipada. Não sirva para construir no coração e na mente de quem dela participa, uma festa de Natal antes da hora, fazendo até com que muitas pessoas encham esta novena de tanto brilho, a ponto de deixarem de celebrar com a comunidade a festa tão desejada, o Natal, sua oitava e seu tempo próprio de vivência até o domingo do Batismo do Senhor. Às vezes, estes “noveneiros”, por este tipo de atitude, acabam não percebendo que estão de certa maneira invertendo o verdadeiro sentido para o qual esta novena foi criada: o de desejar mais intensamente a vinda do Senhor.

Sobre o sentido das novenas, o ‘Diretório Sobre Piedade Popular e Liturgia’, da Congregação para o Culto Divino, diz no nº 103: “A novena do Natal surgiu para comunicar aos fiéis as riquezas de uma Liturgia à qual eles não tinham fácil acesso. A novena de Natal de fato exerceu uma função salutar e ainda pode continuar a exercê-la. Entretanto, em nosso tempo, no qual ficou mais fácil a participação do povo nas celebrações litúrgicas, é desejável que entre os dias 17 a 23 de dezembro a celebração das Vésperas ganhe caráter solene, com as “antífonas maiores”, e os fieis sejam convidados a participar delas. Tal celebração, antes ou depois da qual poderão ser valorizados alguns elementos caros à piedade popular, constituiria uma excelente “novena de Natal” plenamente litúrgica e atenta às exigências da piedade popular. Dentro da celebração das Vésperas podem ser desenvolvidos alguns elementos já previstos (por exemplo, homilia, uso do incenso, adaptação das intercessões.” Por isso, se faz necessário que as equipes de liturgia das dioceses, paróquias e comunidades, dêem mais importância ao sentido, teologia e ritualidade que esta novena carrega.

A participação das famílias, que se colocam à disposição de Deus e dos irmãos que as visitam, para rezarem, cantarem, escutarem a santa Palavra, é um aspecto muito positivo nas novenas. Por isso, não se deve deixar de aproveitar a oportunidade de neste tempo, sairmos missionariamente de nossos templos e irmos ao encontro daquelas famílias, que muitas vezes não compartilham conosco a vida litúrgica de nossas comunidades, mas dividem conosco os sentimentos de esperança por uma nova vida, mais plena de sentido e feliz em todos os aspectos.

Voluntaria ou involuntariamente, estas famílias procuram escapar rebeldemente das programações televisivas tão dominadoras e que não deixam fôlego para momentos familiares e comunitários. É comum que as novenas sejam momentos de comoção na família, por ser, não raramente o único tempo durante o ano em que se reúnem para rezar juntos e refletir sobre suas vidas. Quem coordena, deve estar sempre preparado para lidar com os sentimentos destas pessoas, que nestas celebrações, acabam se lembrando de familiares que já morreram, ou daqueles que se encontram de certa maneira escravos da doença, da droga, do ódio... e que causam a toda a família um sofrimento comum.

Ir às casas durante as novenas, firma nossa caminhada com o projeto de Jesus e nos recorda que as primeiras comunidades cristãs nasceram de reuniões domésticas, simples e informais, cheias de uma rica espiritualidade e que, grávidas do desejo pela vinda do Senhor, entoavam o MARANATHÁ (Cf. I Cor 16, 22; Ap 22,20; Rm 13,12), como o canto dos que aspiravam ardentemente a volta definitiva do Cristo, para que a sua promessa de vida plena e abundante se tornasse uma realidade nesta terra.

Com a renovação litúrgica iniciada pelo Concílio Vaticano II, fomos chamados a incrementar a liturgia “especialmente no que se refere à administração do sacramentos, aos sacramentais, às procissões, à língua litúrgica, à música sacra e às artes,...(SC 39), para melhor atender aos apelos que não só a Igreja de hoje nos faz, mas para responder ao mundo em que vivemos. Por isso nossas novenas, terços, procissões, missões e especialmente a Celebração da Eucaristia, devem ser melhor adaptadas à realidade do povo celebrante, que continua a responder ao apelo que Cristo fez: façam isto para manter viva a minha memória (Cf. I Cor 11,23-27; Lc 22, 19-20; ...e nós o faremos até que ele venha.

Dizemos isto para lembrar que a novena do Natal está entre os sacramentais, que segundo a SC nº 60, “são sinais sagrados, pelos quais, à imitação dos sacramentos, são significados efeitos principalmente espirituais, que se obtêm pela oração da Igreja. Pelos sacramentais os homens e mulheres se dispõem para receber o efeito principal dos sacramentos e são santificados as diversas circunstâncias da sua vida. Sua liturgia permite que a graça divina, que promana do mistério pascal da paixão, morte e ressurreição de Cristo, do qual recebem a sua eficácia, santifique todos os acontecimentos da vida daqueles que o recebem com a devida disposição.
Empenhados em manter viva a beleza ritual deste tempo tão repleto de esperança, que é o Advento, com seus símbolos, textos bíblicos e eucológicos, seus cantos e novenas, continuemos e arder por dentro (Lc 24,32), prontos e vigilantes (Mc 13,35), alegres na oração (I Ts 5,16), despertos e cheios da certeza de que nosso Salvador vem, para libertar e reconciliar o mundo em seu amor. “Vem, Senhor, vem nos salvar, com teu povo, vem caminhar!”






Fontes:

Sacrossanctum Concilium – Constituição sobre a Liturgia do Concílio Vaticano II
Diretório Sobre Piedade Popular e Liturgia, da Congregação para o Culto Divino
Tempo para amar – Penha Carpanedo e Macelo Barros - Paulus
Celebrar com símbolos – Ione Bust – Paulinas
Preparando Advento e Natal – Ione Buyst – Paulinas
Natal, festa de luz e de alegria – Antônio Sagrado Bogaz - Paulus